Dê play no player acima ^ e escute músicas de Pelotas!

Dê play no player acima ^ e escute músicas de Pelotas!

15 de abr de 2015

NOS TEMPOS DO “BULE MONSTRO” (1882 - 1968) - QUE FIM LEVOU O “BULE”?

Fig 1: Bazar e seu bule monstro na fachada. Foto de 1961, Rua Andrade Neves esq. Rua Sete de Setembro. Click na foto para ampliar
      A partir do ano de 1904, quem transitava no cruzamento entre as Ruas Sete de Setembro e Andrade Neves podia ver o “Monstro", por muitas décadas pairou sobre as cabeças das pessoas e ainda hoje permanece, porém agora no imaginário de quem conheceu.
    O monstro era um grande bule! Sinalizava que naquele local havia um comércio diferenciado e imponente, assim como representava seu símbolo, foi batizado de “Bazar Bule Monstro". Durante 86 anos [entre os anos de 1882 e 1968] esteve em funcionamento no coração da antiga Pelotas.
     No fim do século XIX Pelotas já convivia com o que havia de melhor na Europa em cristais, louças, talheres, lustres e tecidos. Um dos comércios que representava e mantinha toda essa grandiosidade da época de ouro, era o Bule Monstro, uma espécie de bazar onde até mesmo a Princesa Isabel esteve fazendo compras. [15 de fevereiro de 1885].
      O bazar quando inaugurado em 1882, pelos Srs. Alfredo Ferreira Sampaio e Antônio Francisco Madureira, tinha sede a Rua São Miguel n.177*, via que a muito tempo [desde 1895] chamamos de XV de novembro. A sociedade entre os dois proprietários só seria desfeita em 1885 quando o Sr. Pedro Afonso dos Santos se juntaria com o Sr. Alfredo para dar continuidade aos negócios. Em 1899 junta -se a sociedade o Sr. Alberto Sampaio.*
    Em 1912, após o falecimento do Sr. Alfredo Ferreira Sampaio [1911], estabelecimento o mais antigo é vendido por sua viúva, Sra. Fortunata de Faria Sampaio, ao Sr. Antônio Gigante*. No mesmo ano o Jornal A Federação noticia a iluminação do Bazar Bule Monstro, já a rua XV de Novembro. A instalação elétrica foi feita pela casa Bromberg & Cia., de Pelotas.*

*Fonte: pesquisador A.F. Monquelat

Fig.2: Notícia sobre a instalação da iluminação no BAZAR BULE MONSTRO. Extraída do jornal A Federação - 02.10.1912. Contribuição de Cinara Dias de Oliveira. Click na foto para ampliar
"aquele tempo, as maiores lojas de comércio exigiam instalação própria para o fornecimento de luz, e o Bule Monstro estava nesse número para poder ter, á noite, brilhantemente iluminadas as suas vitrines dando para a Rua Sete de Setembro e Andrade Neves, na era urbana da iluminação pública feita por lampiões a gás". (Nascimento,1989, p.293)

      Em uma entrevista ao “Blog Panorama Pelotas” (NETO, 2009), antes de falecer, o Sr. Eddy Sampaio Espellet relata que seu avô materno – Alfredo Sampaio – falecido em 1911, filho de portugueses, nascido em Rio Grande, foi quem criou o Bazar Bule Monstro, informação que vem ratificar a matéria publicada anteriormente no Diário Popular no ano de 2003, onde Renato Sampaio, em visita a Fenadoce, reconheceu na réplica de um bule a marca da empresa da família, onde lê- se na publicação que seu avô foi o primeiro proprietário da empresa.
     A propaganda do Bazar Bule Monstro sempre esteve presente nos Almanaques de Pelotas e nos reclames dos principais jornais da cidade. No ano de 1912 as publicidades da loja estavam em nome do Sr. Antônio Gigante (fig.7), nota-se que o endereço é “Andrade Neves, 619”. Já a partir de 1921 as publicidades aparecem junto ao nome de Patrício Simões Gaspar (fig.8), que vem a ser o último dono do bazar, no endereço de Andrade Neves, 628. 
   Nas fotos podemos constatar que o Bule monstro teve duas sedes, ambas no cruzamento das Ruas Andrade Neves com Sete de Setembro, uma em frente a outra, como mostram as três imagens a seguir, que aparecem o bule na fachada. Segundo o pesquisados A.F. Monquelat um dos endereços seria uma especie de depósito do bazar.



Fig.4: Bule monstro fundado em 1882, nota-se que existiam dois endereços na Rua  de 7 de Setembro, um de fronte ao outro.Click na foto para ampliar
Fig. 5: Rua Andrade Neves, vista em direção a Rua Sete de Setembro. Bule monstro no detalhe a esquerda.Click na foto para ampliar
Fig. 6: Década de 60, Rua Andrade Neves, vista em direção a Rua Sete de Setembro. Bule monstro no detalhe a direita.Click na foto para ampliar
      Segundo o Sr. Eduardo Duarte Bernardes, bisneto de Patrício Simões Gaspar, o bazar bule monstro foi realmente comprado da família Gigante. 
      O Sr. Bernardes tem dois membros de sua família na história de Pelotas, o próprio Sr. Gaspar, que além de dono do bazar, fez parte do secretariado da criação do Banco Pelotense, na casa do Sr. Plotino Amaro Duarte, também bisavô de Bernardes, mas isso já é outra história. Sr. Antônio José Peres Bernardes, casado com a Sra. Cândida Gaspar, filha do Sr. Gaspar, assumiu a loja após a morte do sogro, tempo depois o Sr. Álvaro Gaspar Bernardes, em idade de trabalhar, entrou como sócio, o que aconteceu até o fechamento em novembro de 1968, quando a loja foi vendida ao Sr. Joaquim Adriano Júlio, dando lugar a Ótica Cristal, que declara que o nome de seu estabelecimento provém dos lindos cristais que eram vendidos no Bazar e que nunca esquecera.
 “No mesmo ano de minha chegada, 1968, eu e um sócio fundamos a Joalheria e Ótica Reunidas. A loja ficava no centro da cidade, em um prédio onde funcionava também um famoso bazar com o exótico nome de “Bule Monstro”. Lembro-me vivamente desse bazar, que comercializava produtos típicos desse ramo. Entre esses, despertavam-me interesse os puros cristais ingleses, uma raridade. Desse encantamento visual veio-me a inspiração para o nome fantasia” .(FILHO,2013)

Fig.7: Almanaque de Pelotas, 1915. Publicidade bule 
monstro em nome de Antônio Gigante. Andrade Neves, 619.Click na foto para ampliar
Fig.8: No Almanaque de Pelotas, 1921 a publicidade do Bule monstro já aparece com nome de Patrício Simões Gaspar. Andrade Neves, 628, assim como nos próximos almanaques.Click na foto para ampliar

Fig.9: Propaganda do Bule monstro no Almanaque de Pelotas, 1922. Click na foto para ampliar

Fig.10: Propaganda do Bule monstro no Almanaque de Pelotas, 1923. Click na foto para ampliar


QUE FIM LEVOU O “BULE”?

      Pelas fotos que chegaram até nós hoje, podemos conhecer como foi esse comércio, pelo menos sua fachada e o “tal monstro”. Até o momento não se tem conhecimento de algum registro da parte interna do comércio, inclusive podemos encontrar publicidades nos Simonianos “Almanach's de Pelotas” do início do século. O bule foi trazido da França, feito em madeira de lei, caixilhos de chumbo e vidros bisotê coloridos e sua luz era artificial e vinha de seu interior. Ao término do comércio foi vendido a uma casa que trabalhava com metais e antiguidades, na Rua Santa Tecla, cujo dono era o Sr. Argeu Fabres. O resto eu deixo o Sr. Eduardo Duarte Bernardes, filho do Sr. Álvaro Gaspar Bernardes, herdeiro do “Bule Monstro”, poderíamos dizer assim, explicar com suas próprias palavras:

        - Infelizmente meu primo, Luiz Carlos Ferreira Bernardes de Porto Alegre, comprou o bule do Sr. Argeu Fabres e teve a infeliz ideia de levar para capital, estava ele reformando sua casa, ai houve uma fatalidade......desabou o forro da peça onde estava o bule e o destruiu, não tendo mais recuperação, uma grande perda para nossa família e memória de Pelotas. Hoje “ele” estaria exposto na sala da minha casa, com muito orgulho de 03 gerações terem trabalhado no bule monstro.1 
1. Depoimento em entrevista por e-mail de Eduardo Duarte Bernardesem 29 mar. 2015.

Fig.11: Foto provavelmente do final dos anos 60. Nota-se o bule ainda na fachada, mesmo com letreiros de ótica. Click na foto para ampliar
Texto de Fábio Zündler
Graduando em Conservação e restauro de bens culturais móveis/UFPel


REFERÊNCIAS:
FAMÍLIA aprova mudanças. Economia, DIÁRIO POPULAR, Pelotas, 5 abr 2003, disponível em: < http://srv-net.diariopopular.com.br/05_06_03/gm040608.html > . Acesso em: 30 mar. 2015.

NETO, Paulo Gastal. Panorama Pelotas [Blog Internet]. Entrevista - Almirante Eddy Sampaio Espellet. Pelotas: Paulo Gastal Neto. 21 mar. 2009. Disponível em: < http://pgneto.blogspot.com.br/2009/03/entrevista-almirante-eddy-sampaio.html >. Acesso em: 21 fev. 2015.

FILHO, Rubens. Amigos de Pelotas [Blog Internet]. Ótica Cristal, referência de qualidade, Pelotas: Rubens Filho. 6 fev. 2013. Disponível em: < http://www.amigosdepelotas.com.br/blog/otica_cristal_referencia_de_qualidade_1.html > Acesso em: fev. 2015.

MONQUELAT, A. F.. Pelotas de ontem [Blog Internet]. Bule Monstro: pequena história de um grande bazar, Pelotas: A.F. Monquelat. 12 dez. 2015. Disponível em: <http://pelotasdeontem.blogspot.com.br/2015/12/bule-monstro-pequena-historia-de-um.html>Acesso em: dez. 2015.

NASCIMENTO, Heloísa Assunpção. Nossa Cidade era assim. Pelotas: Editora Livraria Mundial, 1889.

MARTINEZ, Leonil. Xarque com assucar/ Pelotas com Nordeste: contraponto de extremos no paladar cultural brasileiro. Florianópolis, 2000. Tese mestrado. Pag. 23. Acessado em: <http://goo.gl/uB6f0G>.

BOTELHO, Daniel Moraes. Nos telhados de Pelotas/RS: revelando rasgos no espaço urbano através de fotografias e cartões postais. Pelotas, 2013. Tese doutorado. Pag. 205 e 206. Acessado em: <http://goo.gl/YgaauL>.
Almanaque de Pelotas. Pelotas, 1913, pag. 12.
Almanaque de Pelotas. Pelotas, 1915, pag. 52.
Almanaque de Pelotas. Pelotas, 1921, pag. 309.
Almanaque de Pelotas. Pelotas, 1923, pag. 347.
Atualizada em 18.12.2015


Fig.12: A esquerda nota-se outra loja bem conhecida dos pelotenses a" Camisaria Paris Londres" de propriedade do Sr. Germano Korn, na foto em frente do prédio. Click na foto para ampliar.





3 comentários:

  1. Olá Fábio.
    Fiquei muito triste em saber que o Bule não mais existe, e a menos de um mês comentava com meus filhos sobre o Bule Monstro e dizia a eles que provavelmente o Bule estaria em algum museu. Infelizmente perderam o Monstro.
    Que lástima, porém ficará vivo na lembrança dos que ainda insistem em viver, porém um dia se perderá para sempre essa lembrança tão maravilhosa, afinal era um ponto de encontro. "Onde podemos nos encontrar? Na esquina do Bule Monstro.
    Formidável.
    Um abraço.
    Prof. Pedro.

    ResponderExcluir
  2. Triste fim de um bule monstro. estamos aqui para que estas lembranças não se percam, mas nada é para sempre. Hoje parece permanecer o ponto. "Onde podemos nos encontrar? No chafariz" Abraço

    ResponderExcluir

Olá tudo bem? Obrigado por deixar aqui seu comentário. Qualquer problema entre em contato direto com a página através do e-mail preteritaurbe@hotmail.com. Se quiser deixe também sua crítica construtiva. Abraço e viva Satolep!